quarta-feira, 15 de abril de 2020

Bastava apenas o sentir

O dia oscilava. As nuvens iam e vinham, como se o sol, envergonhado, tentasse se esconder entre elas, mas quisesse continuar aparecendo. Era uma perfeita analogia com a vida. Com tudo que estavam vivendo.

A brincadeira era leve, descontraída, como a de dois adolescentes cabulando aula apenas pelo prazer da companhia um do outro.

Entre desabafos, risos e abraços, ela tirou os óculos dele, gostava de ver seu rosto sem interferências. O sol aparecia e o mormaço começava a queimar. Nada importava. Olhavam e sorriam um para o outro, mesmo que o sol se insistisse em se esconder.

O sol voltou a aparecer, não havia nuvem que conseguisse escondê-lo por muito tempo.
"Fecha os olhos". "Quando eu abro?". "Shiu! Só deixa fechado". Sentir o momento não exigia nenhum tipo de visão.

Ela recostou em seu ombro, ele colocou a mão no rosto dela, um toque gentil, carinhoso. Ele abriu os olhos, chegou perto. Ela deu-lhe um beijo na bochecha. Ele chegou mais perto e colocou o nariz no dela. Ou teria sido ela a encostar primeiro? Chegaram mais perto. Os rostos se tocavam, mas os olhos permaneciam fechados.

Talvez tenha levado um minuto, talvez dez. Mantiveram -se na mesma posição.  Ela sentia a respiração dele em seu rosto. O coração batia mais forte. O rosto dele se movia lentamente, ela percebia. Como imã, o dela também se movia. Suavemente. Ela abriu os olhos, mas os dele permaneciam fechados. Ela os fechou novamente. A respiração mais forte, como numa expectativa alucinante.

Sabia que não havia volta, haviam chegado longe demais. Quis se importar, quis parar, mas não conseguia mais. A boca dele chegava mais perto. Também, a dela. O mix de medo, ansiedade, expectativa. Pequenos beijos, quase imperceptíveis a atingiram em seu rosto, carinhosos, singelos. Ela permanecia imóvel. Sentiu os lábios dele nos dela. Não se mexeram. Lábios nos lábios, numa eletricidade que há muito não sentia. Tentaram se conter mais um momento, lábios nos lábios, mas nenhum movimento.

A verdade é que já era tarde. O momento que tanto evitaram estava diante deles. As bocas se mexeram, sem pressa. Beijaram-se. Um beijo leve, lento. Beijaram -se. Suave e delicadamente. Como se o mundo tivesse parado. Como se tivessem todo o tempo do mundo. Nada mais existia naquele momento. Não havia dúvida, medo, havia apenas os dois. Nem o sol, nem as nuvens, nem o vento. Só havia o sentir.

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